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Nero em entrevista ao site espanhol caoCultura

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Entrevista guiada pelo poeta e jornalista chileno Ricardo Olave Montecinos. Disponível originalmente em: https://caocultura.com/nero-la-poesia-permite-romper-la-burbuja-de-la-superficialidad/ 24 de julho de 2026


Apresentamos, de seguida, a versão traduzida para português.


Leio a poesia de Nero — pseudónimo do poeta português Roberto Simões (1987) — dias depois da nossa conversa no encerramento da última jornada de «Poesias do Mundo», em Loulé, uma vila no interior do Algarve. Apesar de compreender a língua, a sua lírica é de registo elevado, tanto que lhe escrevo para lho comentar. Responde-me, em tom de brincadeira: «a minha poesia é até difícil de ler para os portugueses».


O escritor, convidado para a celebração do décimo aniversário do festival que reúne poetas de todo o mundo para lerem na sua língua nativa, destaca-se por uma obra robusta que não parou de crescer desde a sua primeira publicação, em 2021. Com uma linguagem cuidada e complexa, as suas pesquisas percorrem a história do território através dos seus elementos, para a devolver ao presente. Exige pausa, releitura, ou a mesma atenção que um mestre dedica ao seu ofício.


Professor de português e literatura há quatro anos, a escrita nunca foi, para ele, apenas mais um passatempo. Tem dedicado tempo e esforço à divulgação da sua obra, que em breve poderá ser lida pela primeira vez em castelhano, numa antologia.


A sua obra começa com Oceano — O Reino das Águas (2021), descrita pelo autor como uma epopeia de fantasia que decorre debaixo do mar. Seguiu-se Telúria (2023), uma viagem às suas raízes biográficas, escrita durante a pandemia, enquanto passeava com os seus cães pelo campo. E, em 2025, publicou Akbar — Lunário Poético duma Alma ainda Árabe, um almanaque espiritual que percorre a herança islâmica na Península Ibérica.


Nesta entrevista, conversa sobre os riscos da sua próxima aventura poética e, nas suas respostas, adivinha-se a sua vocação para construir pontes: entre o passado e o presente, entre o português e o espanhol, entre dois poetas de países distantes.


— Quando decidiste adotar o nome Nero?

As pessoas conheciam alguém que não era exatamente eu, porque quem escreve tem um mundo interior que, na maioria dos casos, os outros desconhecem. Além disso, no meu primeiro livro, as personagens tinham apenas nomes com uma palavra, eram todos nomes curtos e tinham de ser nomes que pudessem ser pronunciados debaixo de água, porque todas as personagens de Oceano — O Reino das Águas fazem parte de uma fantasia épica que decorre integralmente debaixo de água.

Nero não é um nome que se use em português, sobretudo porque é imediatamente associado ao imperador romano e aos atos terríveis que cometeu. Para além disso, é um nome belíssimo, com uma sonoridade muito bonita. A sua etimologia pode significar «de águas claras», mas também pode significar «de águas escuras».


— Escreves a partir do Algarve. Como é, para ti, escrever sobre o sul de Portugal?

O Algarve é conhecido sobretudo pela praia e pelo sol, especialmente desde os anos 60 e 70, quando o turismo disparou, e essa é a imagem que imediatamente associamos ao Algarve. Mas o Algarve não é apenas isso. O Algarve também é o campo, também é o barrocal, a serra; portanto, há muito mais para além do sol e do mar.

O sol e o mar também me definem, claro. No entanto, a minha experiência é também a mais interior, não apenas a do oceano. Talvez por isso, no meu primeiro livro, me tenha voltado para o mar e mergulhado no Reino das Águas. Mas, nos outros, já fiz uma viagem mais interior.

Em Telúria, voltei às minhas raízes mais biográficas. São poemas que falam da experiência do campo, do caminhar pelo campo. Escrevi-o durante a pandemia, a viver no campo, a passear com os cães, e a natureza inspirou-me.

Há quem diga que existem mais de 15 mil palavras portuguesas de origem árabe. Ao crescer e viver no meio deste contexto, tanto linguístico como noutros aspetos, senti-me chamado a escrever sobre estas origens, que também são as minhas. Em Akbar, fiz uma viagem pela expansão islâmica na Península Ibérica, mas o livro acaba também por fazer uma referência ao presente e, eventualmente, ao futuro.


— Pode a poesia fazer alguma coisa contra a indiferença?

A poesia, por si só, não acaba com a indiferença, pois não? Mas, pelo menos, acreditamos que as palavras têm o poder de nos fazer ver para além daquilo que vemos no dia a dia. Ver além permite-nos romper a barreira da superficialidade. Hoje em dia, quando tudo é tão rápido, quando vivemos entre ecrãs e realidades virtuais, as pessoas estão a esquecer-se de viver o dia a dia com outras pessoas presencialmente, de sair à rua, de ir a festivais e a concertos. As novas gerações já quase não vão ao cinema. O contacto com as pessoas é cada vez menor, é mais fácil que falte a empatia.

A poesia permite esse despertar para a realidade, romper essa bolha e, de alguma maneira, levar-nos ao tato, à pureza dos sentidos, à nudez. E isso só é possível, parece-me, através da palavra.


— No poema «Ensaio cordofónico» dizes que «o coração não se pode reparar», mas também que «a vontade, extirpada do peito, cirurgicamente, é o que nos salva». Acreditas que a poesia pode ser essa vontade?

Este poema surgiu num contexto muito específico. Ainda não foi publicado, mas será publicado primeiro em Espanha, numa antologia. Surgiu no âmbito de um evento que organizámos no verão passado, na Feira Medieval de Silves, precisamente num museu municipal. Havia uma exposição de instrumentos de cordas. O mestre José Cardoso convidou-me a escrever alguns poemas sobre a sua arte.

Nesse poema, faço uma comparação entre a construção de instrumentos de cordas e a fisionomia humana, o coração como um instrumento e as cordas que sobem pela garganta, quase como se fosse o braço de uma guitarra. Os instrumentos reparam-se e a musicalidade é restaurada.

Quanto ao coração, claro que é possível operá-lo, é possível transplantá-lo, mas, neste sentido metafórico do amor, as cicatrizes permanecem sempre. É difícil restaurar esse músculo, se não impossível, de modo a que fique como novo. Vivemos numa época em que amar é mais importante do que nunca. É preciso ter em conta os ecrãs, a superficialidade, e, por isso, é preciso amar.


Ricardo Olave Montecinos (à esquerda) e Nero (à direita), durante a participação poética no Festival MED de 2026, em Loulé.
Ricardo Olave Montecinos (à esquerda) e Nero (à direita), durante a participação poética no Festival MED de 2026, em Loulé.

— És professor. Como cuidas o ofício da escrita dentro e fora da sala de aula?

Sou professor há quatro anos. Sempre quis sê-lo, estudei para isso e, depois, desviei-me para outras áreas. A escrita acabou por florescer primeiro e, quando já estava na poesia, senti uma grande necessidade de regressar à sala de aula. A poesia não me bastava para tentar semear essas sementes.

Gosto de ensinar a conversar. Ler poesia na minha sala de aula é conversar sobre os poemas. Paramos tantas vezes quantas necessárias, verso a verso, e vamos conversando, tentando desmistificar o segredo e, depois, procurando compreender aquilo que esses versos recordam aos alunos, para onde os transportam.

Ao fazer este exercício, os alunos acabam por ver a poesia não como algo inacessível, mas como algo que podem desvendar e relacionar com o seu dia a dia, com a sua história, com a sua experiência. Curiosamente, o que percebo é que as novas gerações gostam de poesia. Tem que ver com a forma como ela é ensinada: não a transformar em algo complicadíssimo, não cair nessa ideia de que a poesia não serve para nada e ensinar a beleza de pensar a partir daquilo que os poetas escrevem.


— Quais são os próximos passos do teu trabalho?

Todos os meus livros dialogam entre si. Há uma linguagem comum entre as capas. Gosto de as desenhar, gosto de me dedicar a esses detalhes porque acredito que o livro não são apenas os poemas, a arte também é importante. Creio que é possível oferecer mais conteúdo a quem nos lê a partir das capas.

Existe uma sequência de elementos: a água, a terra, o fogo. Depois de Oceano, Telúria e Akbar, estou a formar uma espécie de trilogia do espírito. São viagens espirituais. Agora vou para a Amazónia, vou ao encontro dos povos originários do Brasil, para compreender as influências do tupi-guarani na nossa língua, aquilo que veio de lá, mas também para conversar com essas culturas. Para mim, enquanto português, é um trabalho arriscado, mas quero tentar estabelecer esse diálogo.


Ricardo Olave Montecinos

24 de julho de 2026


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