Crítica ao livro Akbar — Lunário Poético duma Alma ainda Árabe, por João Carlos Carranca

Há dias assisti ao relançamento do livro, que será tema de um Pertinências no próximo mês, mas hoje trago-o aqui porque há livros que se escutam com a memória da terra. Akbar – Lunário Poético duma Alma Ainda Árabe é a obra do poeta Nero e pertence indubitavelmente a essa estirpe. Não se trata apenas de uma recolha de versos ou de um mero exercício estilístico: é um cântico visceral à herança mourisca que reside nas entranhas da Península Ibérica e, muito em particular, nas açoteias, nas laranjeiras e no silêncio do sul ibérico.
Nero constrói em Akbar uma espécie de almanaque espiritual. A estrutura do lunário conduz o leitor por fases e penumbras, invocando os sopros poéticos de figuras como Ibn 'Ammar. Ao percorrer as páginas, sente-se a urgência de resgatar um património intangível.
A voz poética recusa o esquecimento histórico, lembrando que a alma árabe não é um apêndice distante, mas sim uma camada viva da nossa identidade. O calor da pedra, a cal das casas, a água dos açudes e o sussurro dos ventos transformam-se em linguagem lírica. Os poemas fluem como arabescos, onde o rigor da imagem se cruza com uma cadência quase ritualística.
"Escreve o acaso o destino de todas as coisas" lê-se no espírito que atravessa a obra. Mas na poesia de Nero não há mero acaso: há uma pertença consciente e uma escuta atenta dos fantasmas luminosos do passado.
A geografia emotiva do livro está profundamente enraizada no antigo Garb Al-Andalus. Quando se lê Akbar, torna-se inevitável evocar a sombra das muralhas de Silves ou o murmúrio dos rios que outrora embalaram poetas e reis. Nero atua como um guardião dessa ressonância, provando que a poesia é, porventura, a única ponte capaz de atravessar os séculos sem rasgar a matéria do afeto.
Ao fechar este lunário, fica no ar o aroma das amendoeiras e a certeza de que certas almas permanecem eternamente navegantes sob a mesma lua. Akbar é um convite a olhar para o chão que pisamos e a reconhecer nele os versos que outros, antes de nós, já haviam gravado.
Crítica lida a 14 de outubro de 2026, no programa K'arranca às Quartas
da Rádio Portimão 106.5 FM, pelo próprio João Carlos Carranca.
Escute a emissão aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=DorCk22_tg4&list=PL3DuZ7cPyhkteDVffXuVzxGPiVu14V-j7&index=2

João Carlos Carranca nasceu em Sá da Bandeira, Angola, a 28 de outubro de 1956. Passou parte da infância em Moçâmedes e, desde muito jovem, revelou interesse pela comunicação: aos 12 anos já colaborava num projeto radiofónico do Rádio Clube local. Em 1979, veio para Portugal, onde estudou Medicina na Universidade do Porto. Após a formação, realizou a especialidade no Hospital de Santarém, desenvolvendo posteriormente a sua carreira médica entre Portugal e Angola.
Residente em Portimão desde 1996, exerceu como médico-cirurgião no Hospital de Portimão e esteve também ligado ao desporto, tendo sido médico do Portimonense Sporting Clube. Atualmente reformado da atividade clínica, mantém uma forte ligação à vida cultural e à comunicação, nomeadamente através da rádio, colaborando com a Rádio Portimão, onde dinamiza o programa "K'arranca às Quartas".
Paralelamente à Medicina e à rádio, João Carranca desenvolveu uma vertente literária, marcada pelas suas memórias, vivências e reflexões. É autor de uma trilogia de contos, publicada pela Arandis Editora: "Estórias Soltas e Palavras Vadias" (2016), "Zulmarinho, Delírios ao Sabor das Ondas" (2022) e "Circulando aos Quadrados, Numa Recta que é Curva" (2024). A sua escrita cruza frequentemente memória, experiência pessoal, Angola, Portugal e observação do quotidiano, refletindo um percurso multifacetado entre a Medicina, a Literatura e a Comunicação.


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