"Molduras do Invisível" — Apresentação por Telma Caroço

No dia 25 de outubro de 2026, o fotógrafo Luís Medeira e o poeta Nero inauguraram a Exposição de Fotografia e Literatura "Molduras do Invisível", na Casa-Museu João de Deus, em São Bartolomeu de Messines. A apresentação esteve a cargo de Telma Caroço, cujo texto se reproduz abaixo:
Boa tarde,
obrigada por terem escolhido partilhar connosco este momento especial, a Inauguração da exposição foto literária “Molduras do Invisível” de Luís Medeira e Nero, integrada nas comemorações do vigésimo nono aniversário desta Casa Museu João de Deus.
Começo por agradecer aos autores o amável convite que me foi feito para apresentar esta iniciativa, e a ousadia criativa da mesma. Como cidadã, agradeço ao município de Silves, na pessoa da Sra. Presidente da CMS Luísa Conduto Luís, e a todos os técnicos envolvidos, o esforço meritório em preservar e divulgar a nossa cultura, que deve ser considerado um ato de amor.
Amar a nossa terra é amar as suas gentes, guardar a memória dos que vieram antes de nós, preservar as tradições e transmitir às gerações futuras a riqueza da nossa cultura. Porque uma terra não é apenas o lugar onde nascemos, um lugar onde vivemos: é a nossa história, a nossa identidade e parte daquilo que somos.
Daí também a importância desta casa, deste legado, homenageamos também hoje João de Deus, filho ilustre de São Bartolomeu de Messines, que nos deixou palavras que traduzem o vínculo profundo entre uma pessoa e a sua terra. «Que a terra onde se nasce é mãe também!»

Mas hoje estamos aqui para descobrir as palavras, o olhar de outros filhos da terra: Luís Medeira e Nero (Roberto Simões). Dois filhos que têm em comum o amor às suas raízes, pelo que me ocorre o poema de Olavo Bilac:
A PÁTRIA
Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
É um seio de mãe a transbordar carinhos.
Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!
Vê que grande extensão de matas, onde impera
Fecunda e luminosa, a eterna primavera!
Boa terra! jamais negou a quem trabalha
O pão que mata a fome, o teto que agasalha...
Quem com o seu suor a fecunda e umedece,
Vê pago o seu esforço, e é feliz, e enriquece!
Criança! não verás país nenhum como este:
Imita na grandeza a terra em que nasceste!

Luís Medeira — natural da freguesia de Pêra, é em Silves que reside, cidade que lhe tem servido de inspiração. Integra os serviços do Município de Silves há mais de três décadas e paralelamente tem-se distinguido entre os silvenses pelas brilhantes reportagens fotográficas que documentam os mais variados momentos e manifestações culturais da nossa sociedade. O que começou como um simples hobby transformou-se numa paixão que lhe tem permitido captar a essência do que o rodeia. Em 2025 apresentou a sua primeira exposição individual a convite da Junta de freguesia de Silves e posteriormente foi aqui em São Bartolomeu de Messines que decorreu uma nova exposição “Fotografia na palma da Mão”, e é de novo em Messines que hoje as suas fotografias ganharão novos olhares. Para além de fotografia, adora ler e ouvir música. Detesta mentira e hipocrisia talvez por isso nos mostre o mundo pela transparência da sua lente. Se lhe fosse dado um superpoder usá-lo-ia para terminar com a guerra.
Nero — pseudónimo de Roberto Simões, natural deste concelho, é poeta e professor de Português e Literatura Portuguesa (na Escola Secundária de Silves), tendo concluído a sua profissionalização com elevada distinção pela Universidade Nova de Lisboa. Nero aprecia o silêncio, não gosta que as pessoas não se escutem e da falta de compromisso.
Talvez por isso se compreenda bem que se pudesse ter um super poder escolheria “Viajar no tempo” para recuperar muito do que se perdeu, tanto quanto imagina, irreversivelmente. Eu diria que talvez a noção de honra e força de carácter de algumas gentes... Nas suas obras literárias já publicadas Oceano — O Reino das Águas (2021); Telúria (2023); Akbar — Lunário Poético duma Alma ainda Árabe (2025) encontramos raízes clássicas entrecruzadas com fantasia moderna, ousadia, apego à terra e espiritualidade... A sua poesia desafia a inesgotabilidade do texto e a voracidade do tempo. Partilha com outro poeta, Mário Henrique Leria, um gosto particular: nêsperas! “Uma nêspera estava na cama, deitada, muito calada, a ver o que acontecia. Chegou a Velha e disse: olha uma nêspera e zás comeu-a! É o que acontece às nêsperas que ficam deitadas, caladas, a esperar o que acontece!” Paladares à parte, acredito que partilha também esta inquietude pela passividade das nêsperas desta vida.
Mas o que nos propõem então estes dois filhos da terra?
Vivemos hoje imersos num fluxo ininterrupto de imagens que passam sem deixar rastro. Olhamos para tudo, mas quase nada vemos. Há coisas que só se revelam quando aprendemos a olhar. Não basta ver: é preciso reparar, demorar o olhar, acolher o pormenor, escutar o silêncio das formas e descobrir o que se esconde para lá da superfície das coisas. Reparar é um ato de resistência visual, exige desacelerar, demorar-se... Reparar é conceder ao mundo uma atenção mais profunda; é descobrir que, por detrás da paisagem familiar, existem histórias, memórias e sinais que esperam ser reconhecidos.
Oportuno citar o apelo intemporal de José Saramago, no Ensaio sobre a Cegueira: «Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.» Esta exposição pode até ser uma resposta a este apelo, sendo uma pausa, um resgate da perceção. "Molduras do Invisível — O olhar capta, a mente deriva" nasce deste desejo de ver para além do óbvio, do visível, percorrendo o concelho de Silves, um território onde a serra encontra o mar, onde a pedra guarda a memória dos séculos e onde a paisagem natural e a presença humana se entrelaçam numa narrativa contínua.
Entre os vestígios arqueológicos, os monumentos, as construções de outros tempos e os
elementos discretos da vida quotidiana, cada lugar contém uma história que não se esgota naquilo que os olhos alcançam.
Nestas molduras que aqui estão... um forno evoca o calor das mãos e a sabedoria dos gestos antigos. Uma necrópole aproxima-nos do mistério da existência e da memória dos que nos precederam. As muralhas guardam ecos de outros tempos; o menir ergue-se como um sinal ancestral, testemunha silenciosa de uma relação remota entre o ser humano, a terra e o sagrado. A Sé afirma-se na paisagem como lugar de fé, de encontro e de história. A ponte une margens, caminhos e destinos. Uma janela abre-se sobre o mundo, enquanto um sobreiro, profundamente enraizado na terra algarvia, nos recorda a resistência, a continuidade e a íntima ligação entre a natureza e as comunidades que dela fazem parte.

Estas imagens não são apenas registos de lugares. São fragmentos de um património que importa conhecer, valorizar e preservar — material e imaterial, natural e cultural, feito de monumentos e paisagens, mas também de saberes, tradições, gestos e memórias. Cada elemento testemunha uma forma de habitar o território e de nele deixar marcas. Reconhecer esse património é compreender que o passado não está imóvel atrás de nós: permanece vivo nos lugares, nas práticas e nos olhares que o sabem reconhecer.
Num território de contrastes e de encontros, que se estende da serra ao mar, a geologia conta também a sua própria história. As formas da terra, as rochas, os relevos e as paisagens revelam um património geológico que nos liga a tempos muito anteriores à nossa presença. A identificação do território de Silves como Geoparque Algarvensis, reforça esta consciência: a paisagem não é apenas cenário, é memória da Terra, arquivo de transformações e herança comum que exige conhecimento, respeito e cuidado.
Nesta exposição: a fotografia interroga o mundo; a escrita escava-o. Uma detém a luz sobre as coisas, a outra procura as palavras que lhes desvendem as profundezas. Entre ambas estabelece-se um diálogo subtil: a imagem sugere, o texto insinua; a fotografia revela uma presença, a poesia procura o que nela permanece oculto. Os textos que acompanham cada fotografia não pretendem encerrá-la num significado único, mas prolongar o seu eco, abrir caminhos de interpretação e permitir que cada observador encontre a sua própria história.
Porque há sempre algo que escapa ao enquadramento. Um silêncio entre as pedras, uma lembrança adormecida numa parede, a passagem do tempo inscrita na matéria, a luz que transforma o familiar em mistério. É nesse intervalo entre o que vemos e o que imaginamos que o invisível ganha forma.
Convidamos-vos, por isso, a percorrer estas imagens sem pressa. A olhar para os lugares do concelho de Silves como quem os descobre pela primeira vez. A reparar na beleza que resiste, nos vestígios que persistem, na natureza que nos sustenta e nas histórias que o património ainda tem para contar.
Que cada fotografia seja uma janela e cada texto, um caminho. Que o olhar se detenha, que a memória desperte e que a imaginação encontre espaço para partir. Porque preservar começa, muitas vezes, por reparar. E só verdadeiramente reconhecemos o valor de um lugar quando deixamos de o ver apenas como parte da paisagem e passamos a compreendê-lo como parte de nós.

"Molduras do Invisível" é, assim, um convite a ver, a reparar e a sentir. A descobrir, nas imagens de um território, não apenas aquilo que permanece visível, mas também tudo o que a memória, a poesia e o olhar conseguem fazer renascer.
Telma Caroço São Bartolomeu de Messines, 25 de outubro de 2026


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